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domingo, 22 de março de 2009

Amelie Poulain


Sim, talvez eu seja a louca, surda e cega que possui um olhar tosco do mundo, infantil e irreal, onde tudo é possível, onde tudo é fantasia. Talvez seja essa recusa do real uma covardia... Mas onde estão aqueles que lutam pelo real, para que seja ele real ? Onde aqueles que acreditam na vida e no desenrolar de uma súbita felicidade?

Meu olhar se esgueira por sombras de cerejeiras onde pequenas vidas perpassam livres. Livres da sombra, da cereja e da criança no balanço. E a vida passa como numa tarde no parque. Ao entardecer a sombra laranja passa por baixo da cerejeira, mais fraca, mais densa, iluminando a menina no balanço, tornando sua silhueta iluminada, seus cabelos brilhantes. O caminho escuro de outrora recebe um tapete vermelho alaranjado para que ela siga, sem medo. E a menina segue assim, cega pela luz e não pela escuridão, surda pelo caminhar das formigas, louca de saudade do dia que se acaba naquele instante, mas vívida por outra que se inicia a seguir.

Os outros, os sãos, onde estão ? Provavelmente fora do parque, longe da árvore, dentro de suas casas, seguros em suas visões reais de pedras e metais.