quinta-feira, 11 de março de 2010

Bufões


Sim, digamos tudo
Apenas para quem sabe ouvir, quem quer ouvir
Ou ainda quem foi escolhido para entender

Não, não exponha assim, não me deflagre a mim
Não me escute, não se entenda, Não se aceite

Sou a contradição de muitos, a percepção de poucos
A loucura e a mansidão

Sim, me perco no tempo e no espaço
E acho que faço o que digo
e que sou o que penso

Ando aos tropeços
Cabeça erguida em nuvens
Pisando firme, em falso, de lado
Como um gato que corre atrás de novelos
E atrás dele, fios espalhados por toda parte, expostos
Quanto menor, mais fácil, menos interessante...
Um tanto perverso, um tanto sórdido

Um tanto triste, melancólico
Um tanto hostil,
um tanto

sábado, 6 de março de 2010

Rainhas e bufões


Ninguém deveria querer lutar com rainhas.
Elas são e pronto.
Umas vez nomeadas, assim serão eternamente, mesmo sendo o eterno grande demais.

Mas o que seriam as rainhas ?
As que detém o poder, soberania, e altivez ?

Talvez não, talvez mais.
Talvez sejam aquelas que detém a atenção e honra dos pobres bobos da corte.
E nas suas piruetas e folguedos a enredam em graça e privilégios.

Bufões, arlequins dissimulados que se esgueiram pelos úmidos córregos margeadores das pequenas vilas e cidadelas do reino.
E a vida flui, no mesmo córrego, no mesmo ritmo, na mesma tonalidade esverdeada e fria.

Em suas firulas e estratégias os bufões falam do ridículo.
Espalham verdades
Espelham absurdos
Esmeram na graça da desgraça,
da própria desgraça, do próprio infortúnio.

E onde as rainhas?
Do mais alto quarto de sua mais alta torre, ela adormece.
Seu sono de rainha, seu sorriso de princesa.
Num coração de menina num mundo de faz-de-conta.

As cores dos bobos divertem,
Seus modos transgridem a paz empoeirada do castelo
O bolor de cada canto é deflagrado com sua música

Vamos, levante-se!

As rainhas permanecem, os bobos são volantes
De acordo com sua esperteza e sagacidade eles se demoram mais ou menos em seus postos...
- Cortem sua cabeça!
Por falar demais,
cantar demais,
colorir demais

Traga outro, ao menos mudam a fantasia...

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Metade


Que a força do medo que eu tenho,
não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio...

Que a musica que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste...
Que a mulher que eu amo
seja pra sempre amada
mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece,
e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço
E que essa tensão
Que me corroe por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso
mas a outra metade é um vulcão

Que o medo da solidão se afaste,
e que o convívio comigo mesmo,
se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita em meu rosto,
um doce sorriso,
que me lembro ter dado
na infância
Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei

Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio
me fale cada vez mais
Porque metade de mim
é abrigo,
mas a outra metade
é cansaço

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para faze - la florescer
Porque metade de mim é platéia,
e a outra metade é canção

E que a minha loucura seja perdoada,
Porque metade de mim é amor,
e a outra metade...também.

(Oswaldo Montenegro)

domingo, 22 de novembro de 2009

Processo

Inteiro, parte de um parto

Parto sem dor, dormência, inocência



Externo, exímio fugitivo de luzes de um palco

Palco de vida, vivida, vívida



Pulsa a vida por dentro

Como uma nova prestes a explodir e renascer

Fazer brotar nova vida, novos mundos, novos rumos

e muitas luzes



Respiração, inspiração, transpiração

Piração ?

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Gangorra


Preto e Branco
Luz e sombra
Bailarinas e Palhaços
Violões e bumbos
Ampulhetas e mar aberto

ir e vir
ser e estar
ficar e partir

falar e calar
ouvir e julgar
maltratar e amar

Complementos de outro, indo e vindo
Vindouros, sábios, sãos

Promessas infantis de dedos cruzados que se repartem e se vão
Pactos de sangue na escada escura,
Na inocência tímida,
Na pureza da alma,
Nos primeiros passos

Assim segue o rumo das coisas
e então chegam o cinza,
a penumbra,
os trapezistas,
os oboés e
os castelos de areia.

domingo, 30 de agosto de 2009

Juramento de uma mente sem lembranças


Não sei ou não entendo.
Juro.
Muitas das vezes sua fala não tem eco, não faz sentido.
E de um esforço Hercúleo tento extrair o odor bom ou ruim de seu pensamento que se esvai sem freio. Como uma pororoca forte e desmesurada, arrancando as raízes outrora firmes e sólidas.

Eu tento, juro.
Mas minha ignorância nesses fatos se mostra intolerante, impaciente, indecisa e apressada.

Eu faço, creio. Cria fosse assim o caminho que havíamos juntos traçado, sonhado. Eu faço o que posso e o que também não deveria. Mas faço em prol de um bem maior. Um bem, que pudesse estar ou ser, pequenino, sem forças, nascente. Muitas vezes apenas promessa decente.

Caminho sem pernas, mais no pensamento, no vento, no mundo criado por poucos, alentado por tantos. Um mundo de verdades, de erros improváveis, não mensuráveis, sem julgamento, sem tento.

Caminho na luz dos olhos que reluzem estrelas, e mesmo sem vê-las sei que ali estão, vivas ou não. Mas o que importa ? Onde estiveram deixaram história, memória. Se o brilho se apagou, se o ciclo acabou, alguém fez um pedido e nesse lapso um presente: a eternidade na história.

Juro querer sempre ser o todo, o muito, o contínuo.
Juro tentar entender sempre. Entender a incógnita nas equações de palavras. Palavras jogadas sem fé ou perdão.
Juro buscar o caminho melhor, não 0 menor.
Juro sem medo de errar.
Juro trilhar outra vez.

sábado, 15 de agosto de 2009

Do barro, da vida


Não, nem tudo está em suas mãos.
Há o pouco, o punhado de areia que escapa seca, fina e branca.
Há também o barro úmido que não se esvai e deixa partir somente a água que parte e o deixa em partes ressequidas.
O barro só se vai após a água partir, seco sem algo que o faça inteiro.
Das partes que somos, secos, partimos, nos espalhamos pulverizados.
Talvez fazendo parte de outra parte, talvez perdidos em partes soltos e ínfimos.
Mas há a chuva que sempre vem e de tempos em tempos recolhe os grãos, o pó, os despedaçados.
E novamente há o barro, o ciclo.
Vida que retorna em partes de tantos.
Tantos que repartem vida a muitos.
Muitos que nem sabem que vivem
Vida que reparte vida.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Sobre suas mãos


Inteiramente sob sua proteção e afeto.

Doação recíproca,
dependência,
fragilidade.


Me entrego por inteira e me faço crescer junto. Aprendendo os passos que oferece, incertos ou não.

No peito, o coração, a metade que resta e sustenta todo o pequeno corpo, frágil.


Me entrego por inteira, passo a passo, dia após dia, em cada queda uma nova cicatriz.


Me entrego por inteira e me faço nuvem para aliviar suas mãos, já não tão grandes como outrora.

No peito, o coração ainda metade, forte.


Me entrego por inteira, agora ao mundo, covarde e vil.

Mesmo assim, me entrego por inteira.

Mesmo sem crença ou graça.

Sem Denário ou troféu.

Sem aplauso, vaia, sem adeus.

Me entrego por inteira dia após dia e no peito, um coração que corajosamente bate e invade, e de tanto bater descubro que sempre foi inteiro, perfeito e íntegro.

domingo, 12 de julho de 2009

Fotos antigas

Assim, visto do alto, o mundo torna-se indiferente.
Talvez mais sépia, talvez mais gris.
Seja então o último dos porões a se abrir para que se desfaça toda poeira e mofo ao sol.
Os telhados, esses pobres recebedores de dores e sonhos, percorrem o mundo sem barreiras, sempre ao sol, ao vento, à chuva.
E se vão.
Perdem seu brilho,
sua cor,
seu viço.
Mas estão ali, como um mar de assuntos não percorridos ou anunciados.
Somente os gatos como testemunhas, e a lua como guia.

Ali, visto de cima, não há disfarce.
Os remendos são claros, há marcas do tempo e das intempéries.
Há ninhos passados, abandonados, desfeitos.
Há restos de tudo o que por ali passou.
O que veio de cima mas por ali (re)pousou.
No mais é apenas deserto sem pistas,
mutante,
que expulsa o que recebe.

Talvez mais sépia, talvez mais gris.

Os telhados, esses pobres cobertores de vidas, seguem seus rumos
sem tino ou medo, como cegos ou tolos, gratos ou bestas.
Sem perguntas ou tampouco respostas.
Seguem o destino que a lua dita,
o sol impõe, a chuva exige.

Mas tem o vento.
E esse a tudo desfaz
pois que se coloca entre todos sem licença ou espanto
Sem rima ou poesia
Apenas de fato

E chega varrendo a chuva, esfriando o sol ou a lua.

E o vento define o lugar dos telhados e os arranca pra sempre
dos lugares de sempre
destrói o gris, desfaz o sépia, entorna o vermelho.

domingo, 5 de julho de 2009

Uma canção para o mundo

E então a luz se fez
E o mundo então incerto
descobre suas cores,
suas nuances,
seus relevos.

E então: luz-se
E então ? a luz?
E então se fez ?
E então fez-se
Então fez
Então Se
Então luz

E com a luz descobre também as sombras,
o esconderijo dos fracos,
dos covardes,
dos tímidos
Não que sejam iguais,
mas diante da luz aparentam.

Mas benditos sejam esses !
Pois que toda fraqueza,
covardia ou timidez
será uma dia iluminada

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Mulher


Ora menina sem hora e sem dor
Ora mulher

Ora menina senhora se dá
Ora mulher

Ora menina que sonha e que chora
Ora mulher

Ora menina na fronha a pensar
Ora mulher

Ora menina que teima e bate o pé
Ora mulher

Ora menina entre laços e flores se enfeita
Ora mulher

Essa menina que é doce e meiga é também frágil
A mulher...

domingo, 7 de junho de 2009

Hamburg Song

Não, não quero ser adorada, ser a primeira, única ou a última.
Não quero me fazer ouvir
Mudar você ou a mim mesma.

Talvez apenas quisesse fazer você brilhar, brilhar e brilhar.
Brilhar a luz que dentro se esconde
com medo ou preguiça,
amor ou temor,
sabedoria ou insensatez.

Sim,
Sinta-se amado verdadeira e profundamente
Sem fronteiras
e de forma incondicional

As vezes penso que pode ser perda de tempo,
mas já é tarde,
o mar não escolheu a lagoa ou tampouco a menina
Mas ele é tão imenso que pode conter de tudo
e falsear o que poderia ser
ou ainda o que gostaria que fosse...

Nos encontraremos no fim
quando formos gatos.



I don't wanna be adored
Don't wanna be first in line
Or make myself heard
I'd like to bring a little light
To shine a light on your life
To make you feel loved
No, don't wanna be the only one you know
I wanna be the place you call home
I lay myself down
To make it so, but you don't want to know
I give much more
Than I'd ever ask for

Will you see me in the end
Or is it just a waste of time
Trying to be your friend
Just shine, shine, shine
Shine a little light
Shine a light on my life
Warm me up again
Fool, I wonder if you know yourself at all
You know that it could be so simple
I lay myself down
To make it so, but you don't want to know
You take much more
Than I'd ever ask for

Say a word or two to brighten my day
Do you think that you could see your way
To lay yourself down
And make it so, but you don't want to know
You take much more
Than I'd ever ask for

domingo, 24 de maio de 2009

Amor, sublime amor

Amor
Palavra estranha e que de tão desmesurada
muitas vezes escorre e se esvai.

O tempo passa mas o significado não me ocorre.
Ele cresce, multiplica e se traduz em paz, aceitação.

Amor, sublime amor. Sublime, superior, inexplicável, inexorável, imutável.

Por quanto tempo o homem consegue carregar o amor ?
Seu fardo pode ser por demais pesado para ombros tão frágeis.
Por demais brilhante para olhos tão cerrados.
Por demais perfumado para olfato impregnado das coisas do mundo.

Por quanto tempo um homem pode perceber o amor ?
Translúcido, inodoro, imaterial.

Talvez nunca.
Talvez pra sempre.

Talvez ou nunca.

domingo, 17 de maio de 2009

Menina

Visceral.
Vejo uma lâmpada, remédios, fios emaranhados.
Tudo se torna escuro aos poucos.
Não posso mais distinguir a lâmpada dos fios...

Ao fundo uma melodia doce baila ao frio matinal.

O sol timidamente aparece e invade minha janela
roubando a tranquilidade e o torpor da canção.
Mas a canção cresce como que dando boas vindas ao dia que nasce

O cão ainda dorme, a menina ainda dorme, a lâmpada não está acesa.

Ainda mais forte insiste a melodia que cresce e cresce.

As portas se abrem, o vento gélido penetra sem piedade.
As folhas amareladas, sem pedir nenhuma licença, cobrem a varanda.
Cama gélida que o sol timidamente repousa.

Esfregue os olhos, menina !
Em seus pequenos sapatos, mais um dia inteiro.
Em seus cachos negros pululam as idéias, os arco-íris.
Em suas mãos de travesseiro, a vida que brota desmesuradamente,
sem escolha, sem pensamento, sem querer.
Venha ao mundo real. Traga a música e a cor,
A suavidade e o desembaraço.

Caminhe até o rio de águas claras
onde os peixes e as pedras lhe presenteiam com um balé.
Ao entrar no rio deixe seus cachos negros encher de cores o rio.
Um arco íris a romper os céus.
Do leito do rio leve somente pequenas pedras,
escolhidas com cuidado e um pouco d'água límpida.

Volte pra mim menina, e traga a água, a música a as cores.

Máscaras Cotidianas

Máscaras Cotidianas, Máscaras Urbanas.

Máscaras...
Máscaras domésticas,
Máscaras comerciais,
Máscaras afetivas,
Máscaras...

Simples objeto de proteção ? De adorno ?
Posturas diferentes para diferentes situações sociais ?
Diferentes papéis vividos
ou uma personalidade de colcha de retalhos ?

Camaleões urbanos em permanente mutação de cores,
de camuflagem, ou exibicionismo?

Somos diversos, somos muitos, somos mais,
Somos muitas faces que se revelam e se escondem.
Que se misturam e se completam.
Somos nós por inteiro ou pela metade.

Tudo levar, tudo deixar,
Tudo ser, tudo ter.

Bolsos sobrepostos para nada esquecer (ou tudo esconder?),
A cada instância uma necessidade.

Somos um emaranhado de nós mesmos e de tantos que por aqui passaram
Carregamos um pouco de todos e deixamos um pouco de nós...